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sexta-feira, 4 de março de 2016

A Ilha da Vergonha (013)

"Não havia dúvida. Havia alguma coisa debaixo de água."

Duas potentes remadas levaram o bote até ao canto mais escuro da gruta.
– Mantêm-no firme! Eu vou ver.
Inclinou-se para fora e, antecipando uma arrepiante água gelada, mergulhou a cabeça, mantendo-a submersa por alguns segundos. Quando voltou a emergir, aspirou rapidamente umas quantas golfadas de ar enquanto agitava com força a cabeça para expelir o excesso de água dos ouvidos.
– Então? – Perguntou o companheiro, ansioso.
– É uma argola de ferro. Não parece estar enferrujada e está a cerca de vinte centímetros de profundidade. Acho que consigo chegar-lhe, se me segurares pelo cinto.
– Para que servirá?
– Sei lá. Talvez fosse um antigo ancoradouro. – Respondeu, encolhendo os ombros. – Em todo o caso, o tenente mandou verificar tudo, e é o que pretendo fazer.
Paiva tinha servido como segundo subsargento da marinha, antes de ter concorrido para as tropas especiais. Pela sua experiência, sabia que aquilo podia ser tudo menos um ancoradouro. A maré estava baixa pelo que, aquele aro tinha sido colocado naquela posição com o intuito de permanecer escondido, mesmo numa situação de baixa-mar extrema. Ainda por cima, a ausência de ferrugem sugeria um uso constante, restava saber com que finalidade.
– Vamos lá com isso. Tenta puxar a ver o que acontece.
Seguro pelo cinto, o colega de Paiva mergulha outra vez, tentando alcançar o aro. Puxou-o sem dificuldade e este deslocou-se cerca de dez centímetros da rocha. Uma ligeira brisa acariciou os cabelos do subsargento um segundo antes de uma porta da altura de um homem miraculosamente se abrir à sua frente. O susto fê-lo largar o cinto do colega que, sem apoio deslizou para fora fazendo balançar o barco no sentido contrário, o que fez com que o desprevenido Paiva também fosse experimentar a água.
Os dois surgiram logo depois, quase em simultâneo, um de cada lado do bote. Numa situação normal, ambos já teriam iniciado um longo reportório de comentários ofensivos, tendo como alvo a mãe de cada um deles, respectivamente, mas as gargantas não conseguiram expelir um único som por tempo suficiente para que os dois se acalmassem, enquanto olhavam estupefactos a abertura na rocha em formato de porta. Como se fosse combinado, os dois saltaram ao mesmo tempo para dentro do barco e Paiva, mais rápido que o colega, galgou a abertura recentemente aberta levando a lanterna entre dentes.
– Eu vou examinar isto – disse. – Chama o tenente pelo rádio. – E desapareceu na escuridão.
O segundo furriel Lourenço conformou-se mais uma vez. Bem vistas as coisas, tinha a mesma patente que o seu colega da marinha mas, face a ele, acabava por ficar sempre em segundo plano.
«Raios! É sempre a mesma coisa.» – Resmungou entre dentes, enquanto puxava a aba de um dos bolsos unidos com velcro e retirava o auricular que ajustou cuidadosamente ao ouvido. Rodou o botão do rádio e, momentos depois transmitia a descoberta para o tenente.
«Corifeu para posto um.» – A voz do tenente entrava-lhes pelos ouvidos com uma agressividade que o obrigou a baixar o volume. – «Façam um reconhecimento e voltem à base.»
«Afirmativo! Posto um desligado.»
Guardou novamente o auricular e, manobrando o barco, aproximou-se mais da entrada por onde o colega tinha desaparecido. A lanterna iluminou o que parecia ser um corredor com cerca de três metros de comprido, fazendo em seguida uma curva em “L” para a esquerda.
– Paiva! – Gritou.
Silêncio.
– Paiva! – Voltou a chamar.
– Acho que encontramos. – Respondeu ao fim de alguns segundos, com a voz acompanhada por um ligeiro eco. – Espera um minuto, vou tirar algumas fotos. De certeza que o tenente vai querer ver isto.
Paiva encontrava-se agora numa sala escavada na rocha de uma forma quase quadrangular. Pequenos traços de luz chegavam até ele por frestas no tecto, cortando a escuridão como um raio laser, e um cheiro putrefacto, uma mistura de dejectos humanos com algas em decomposição, castigou-lhe as narinas de tal forma que a surpresa o fez suster a respiração.
A lanterna iluminava agora todos os cantos do recinto. Tinha sinais de estar habitado.


Desde a última missão que o equipamento da equipa tinha sido revisto e melhorado. Agora, incluía também uma câmara digital à prova de água com pouco mais de três milímetros de espessura. Depois de se certificar que a sala estava vazia e não o esperava nenhuma surpresa desagradável, passou a lanterna para a mão esquerda e, com a outra mão, apontou a pequena máquina fotográfica na direcção do foco de luz. Um após outro, todos os pormenores da tosca sala foram fotografados: à sua frente, uma cama de ferro com algumas lascas de tinta que teimavam ainda em prevalecer sobre a ferrugem, suportava um minúsculo colchão e dois cobertores, corroídos pelo tempo; ao lado, uma cadeira de madeira com um buraco no centro alojava um penico de ferro quase cheio e meio rolo de papel higiénico pendurado nas costas; uma mesa com pouco mais de meio metro de comprimento e duas cadeiras, tentavam equilibrar-se no pavimento irregular; sobre a mesa, um prato de barro e um talher em plástico apresentavam restos, ainda húmidos, de comida; no chão, ao centro, uma carpete brilhante, quase imaculada, contrastava com o resto da sala, albergando uma tigela de barro com uma vela quase gasta no seu interior.
Paiva olhou novamente para cima, para os pequenos fios de luz que rasgavam o tecto da sala, chegando à conclusão que serviriam como respiradouros deixando entrar ar suficiente para que uma pessoa pudesse sobreviver ali dentro, mesmo estando tudo fechado. Já se preparava para retornar ao barco, quando a bota chuta qualquer coisa que vai embater na parede. Apontou automaticamente a luz da lanterna para o sítio onde ouviu o embate e baixou-se para examinar o pequeno objecto cinzento.
Era a bateria de um telemóvel...

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